CULTURA & COMPORTAMENTOQuando fui ver o premiado filme de estréia do diretor Marcos Jorge, eu estava de estômago vazio, é que na pressa para não perder a sessão, não tive tempo nem de fazer um lanchinho antes...
Mas valeu a pena sentir a barriga roncar, enquanto se refestelava com a projeção de
Estômago (Brasil/Itália, 2007), conta a história de Raimundo Nonato, desde sua chegada à cidade grande até o momento em que este, tenta se tornar o temido ‘Nonato Canivete’ e acaba virando o lendário e hilário ‘Alecrim’.
No papel de Nonato está o competente ator João Miguel (Cinema, aspirinas e urubus), o filme conta ainda com o não menos eficiente Babu Santana (Quase Dois Irmãos) e a participação do Titã Paulo Miklos (que parece trazer uma releitura do seu personagem em O Invasor), o restante do elenco é formado por atores e atrizes do teatro de Curitiba, destaque para Fabiula Nascimento e Zeca Cenovicz.
A direção do Curitibano Marcos Jorge é intimista e segura, e todos os ingredientes se completam de forma homogênea, como numa receita de família, resultando numa iguaria deliciosa.
O enredo é simples: emigrante nordestino chega à metrópole de mala e cuia, sem conhecer ninguém, sem emprego definido e nenhum tostão no bolso ( qualquer similaridade com esta colunista é mera coincidência, com exceção de que não cheguei aqui ‘lisa’ é mesmo muita coincidência!), e consegue seu primeiro trabalho como auxiliar de cozinha ( apenas outra coincidência!!), é a partir da descoberta do seu talento nato para a culinária que Nonato passa a ter visibilidade, e aprende as lições da vida ao entrar num jogo de poder, sedução e crime.
O filme foi quase totalmente rodado em Curitiba, mas não esperem os belos cartões postais, a Curitiba que se vê é uma metrópole genérica.
Estômago é uma fábula moderna sem contra-indicação, delicado e leve como um Crème Brulet, mas não se enganem, seu recheio não é assim tão doce, por isso mesmo é um deleite, pois não é 'enjoativo'. No final, nem lembrava mais da fome que estava sentindo, já havia enchido o 'bucho' de um bom filme.
"Um filme que retrata a realidade dos jovens da periferia que não tem relação com a criminalidade". É assim que o diretor Walter Salles define Linha de Passe ( Brasil, 2008). O novo longa da dupla Salles & Thomas parece não querer e nem exigir muito, talvez por isso não tenha recebido a devida atenção, mas este 'despojamento' e despretensão, creio eu, é proposital, para não haver comparações precipitadas e equivocadas com "Central do Brasil", ambos tem em comum o mesmo ator principal e uma narrativa declaradamente emotiva e melancólica, mas são distintos até mesmo nas semelhanças: 1° este filme é mais da Daniela Thomas do que do Walter Salles, ela aliás é co-roteirista. 2° aqui nos deparamos com um drama muito mais contido e realista do que o lacrimoso melodrama de "Central ". 3° as motivações dos personagens são abordadas de forma mais complexa.
É a história de Cleuza (Sandra Corveloni), uma mãe solteira de 4 filhos que está grávida do quinto rebento, em sua luta diária pela união e dignidade da família, e que vive na invisibilidade da periferia de São Paulo, Cleuza alimenta nela e no seu filho Dario (Vinicius de Oliveira) o sonho de que este vire um grande jogador de futebol. É a urgência em aproveitar as poucas e esparsas oportunidades, afim de conseguir uma transição na qualidade de vida que levam, que forma, junto com as pequenas e grandes frustrações de cada membro da família, a matéria orgânica do filme.
Encabeçado por Sandra Corveloni - ganhou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes - e Vinicius de Oliveira, que retoma sua parceria com o diretor dez anos depois de "Central" e mostra que o tempo só lhe fez bem, todo o elenco está afiadíssimo. Mas é o novato Kaique de Jesus Santos, quem rouba a cena o tempo todo, no papel do pequeno Reginaldo, que vive obcecado em encontrar seu pai, cuja as únicas referências que possui é que ele também é Negro e é motorista de ônibus coletivo, nessa 'saga' do caçula é quase impossível não sentirmos um déjà vu do personagem Josué (Vinicius) de "Central", mas como já deixei claro antes, há diferenças, e ao contrário da mãe de Josué, Cleuza não encoraja nem um pouco este encontro. Os outros dois irmãos são literalmente o 'irmão' Dinho (José Geraldo Rodrigues), frentista de um posto de gasolina que procura na religião uma saída para sua condição, e Dênis (João Baldasserini) o irmão mais velho que é motoboy e pai ausente.
Em Linha de Passe não há espaço para a emoção gratuita ou estilizada, o que sentimos é muito mais uma experiência analítica, e isso fica claro no clímax, com seu final em aberto nos levando em vários caminhos e reflexões.
Continuo achando "Terra Estrangeira" o melhor trabalho da dupla Salles & Thomas, felizmente este filme sinaliza que o duo ainda tem muito o que falar e que mostrar, e Linha de Passe ao contrário do que se passa com seus personagens incógnitos na gigantesca metrópole, merece toda atenção e visibilidade.
Eu pensei que fosse necessário me desarmar completamente para assistir Última Parada: 174 (Brasil, 2008), por conta de ter visto o excepcional trabalho de José Padilha (Tropa de Elite) quando dirigiu o documentário Ônibus 174 que abordou a mesma história.
Para minha surpresa o filme é melhor que a encomenda, e pode se falar que foi mesmo encomendado, o roteiro é de Bráulio Mantovani - em estréia solo - feito sob encomenda do diretor Bruno Barreto, e o filme foi o escolhido para representar o Brasil numa indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009.
Muita gente torceu o nariz, tudo bem que apesar de ser tecnicamente impecável em relação aos filmes nacionais em geral, ele tem também algumas falhas, o que não compromete, em compensação, o seu desempenho. A hostilidade por parte de alguns críticos é por causa do 'apelo politicamente correto' do filme, mas isso é muito subjetivo, o que é defeito para uns se torna qualidade para outros.
Primeiramente se trata de uma ficção, o ápice da história ainda é o mesmo, com o detalhe de agora ganharmos um prólogo sobre a vida de Sandro, ou seria Alessandro??
E de brinde um epílogo reforçando a personalidade própria deste filme em relação tanto à história real quanto ao filme antecessor do José Padilha.
Bruno Barreto sabia o que queria quando resolveu levar adiante este desafio, e é isto que faz a diferença quando a empreitada parece ser difícil, o resultado final é um filme sóbrio, discreto, imparcial, sem julgamentos e o melhor de tudo: longe do maniqueísmo americano que andou impregnando o diretor no anterior "O Que é isso Companheiro?".
O elenco como já virou moda entre os diretores nacionais é quase todo de atores estreantes, com exceção da atriz Cris Vianna no papel da mãe adotiva de Sandro, os raros rostos conhecidos aparecem em pequenas participações, nem por isso o elenco deixa de dar um show.
Agora respondam rápido: o que os filmes "Tropa de Elite", "Cidade de Deus" e Última Parada: 174 tem em comum? além de abordarem a violência é claro! não sabem?? eu digo: o roteirista Bráulio Mantovani.
Talvez esta curiosidade sirva de argumento para vocês decidirem ver ou não o filme.
JAN MAYEN SOMAR é cinéfila de carteirinha (do Estudante) e futura caloura da CINETVPR , é Cabeleireira e Maquiadora e nas horas vagas (cada vez mais raras) vai bater cabelo nas Boates de Curitiba!
Quem pode, podeeee!
ResponderExcluirCaramba, muito bom!
Quando crescer quero escrever assim! *____*
Adorei o texto :) analises bem-humoradas são MARA!
Beijos! ;*
Sucesso sempre!
Ainda que a marca carismática da colunista esteja perceptívelmente impressa em cada palavra, todas as 3 críticas foram construídas com muito profissionalismo, e, diga-se de passagem, com bastante autoridade.
ResponderExcluirParticularmente, achei que os elogios foram exagerados (apesar de contidos) e que estes longas, à exceção de "Linha de Passe', realmente poderiam ser bem melhores. Mas, como o que se leva em questão aqui são os aspectos mais simples da filmografia, e estes servem mais para mostrar o crescimento do cinema nacional do que tentar nortear a agenda de entretenimento do respectivo leitor, à crítica se faz muito boa, consistente, coesa, pertinente – ufa! –, e cumpre com revérberos a sua função.
Parabéns Jan!
Com certeza voltarei ao blog
(e ainda farei propaganda =P)
Fiquei com vontade de ver! rsss..
ResponderExcluirSeu manipulador de mentes! XD
Parabens, texto impecável.
Ah, gostei bastante da coluna!
ResponderExcluirMas só posso dizer que, ao contrário de você, saí do "Estômago" com a barriga roncando e morrendo de vontade de devorar uma coxinha!
O linha de passe é muito bom também, mas o "última parada" eu ainda não vi.
Belos artigos, adorei a maneira com que escreve, sem grandes firulas, simples e concisos.
Parabéns !!
*Só faltou falar do "Ensaio sobre a Cegueira"