17 de dezembro de 2009

EDIÇÃO ESPECIAL
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A Loucura de Fim de Ano (parte 1): os discursos vazios

Esse período de fim de ano é um momento “particularmente perigoso” para a saúde psíquica das pessoas, por ser um período de alegria irracional e de angustias por relembrar os desastres ocorridos durante o ano, entre outras coisas. Guardada as devidas proporções, a loucura de fim de ano se assemelha à angústia do fim de tarde do domingo e à euforia passageira das sextas-feiras.

Esse período não tem uma data precisa pra começar. Para alguns o apelo às compras desde o fim do mês de outubro é um sinal de que as coisas já não estão como antes; para outros, a semana do Natal é crucial para desencadear todo um mal-estar; em outros casos, o término do ano letivo se soma ao complexo de férias perfeitas. Em todos os casos a quebra da rotina, a ansiedade gerada pela organização do tempo e o caos dos encontros e confraternizações podem gerar um risco social que vai do medo à melancolia.
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Para o psicanalista Christian Dunker, nas confraternizações e festas é possível classificar três tipos de discursos vazios e clichês da Loucura de Fim de Ano: o discurso da histérica, do universitário e o do mestre. A histérica (ou o sujeito histérico) promove sua fala sempre a uma terceira pessoa, como forma de deslocar toda sua frustração com a vida para alguém indefeso, também é conhecido como fofoca. O vestido repetido, a insuficiência culinária da anfitriã e o mau gosto no penteado da colega da mesa ao lado são sempre temas das conversas. A fofoca é sempre comum nas reuniões sociais, mas como a lembrança dos desastres é presente em confraternizações, a fofoca adquire um tom jocoso, mas sem perder a característica do vexame e da ridicularização.
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O universitário é aquele sujeito que leva para as comemorações seu conhecimento superior, acima dos demais. O que ele sabe pela experiência é aguçado pelo seu estudo aprofundado, pela sua pesquisa e sua vontade de saber. É o sujeito que se acha, o expert em tudo. Ele sempre conhece mais da música que toca, da origem do vinho e dos pratos servidos, da crise política e econômica que o país passou e, claro, da possibilidades do Brasil ser campeão mundial na próxima Copa. Isso o faz se sentir separado dos mortais.
Por fim, o mestre é o sujeito mais aparentemente envolvido com as festividades. Mas apenas aparentemente. É aquele que se compromete na organização do evento, aquele que busca a perfeição e de um suposto “bem-estar” dos convidados. Se sobreocupa com questões banais, como a escolha da cor da azeitona e do pimentão da salada, ou organiza mimeticamente os horários de chegada e saída dos convidados, do amigo-secreto, da ceia, etc.. Não é-lhe permitido mais nada, a não ser falar sobre a organização da festa. Isto parece ser uma técnica de esquecimento da vida real, uma “fuga para frente”. Não há envolvimento afetivo com os convidados. Apenas com o trabalho em organizar.
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O fato é que, para Christian Dunker, “esses três discursos são táticas para fugir do desprazer, mais do que meios para usufruir d satisfação esperada no final de ano”.
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José Ulisses Nascimento

2 comentários:

  1. muinto bom esse artigo!

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  2. Bem criterioso o Christian Dunker, discute com veemência e os tipos de discurso. As pessoas realmente se perdem no vazio e acabam descaracterizando o verdadeiro sentido das confraternizações de fim de ano.

    Muito bem escrito o texto do Ulisses, sabe utilizar bem as palavras.

    Parabéns!!!

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