23 de outubro de 2008

Debate da Estação

As dificuldades de um deficiente físico no dia-a-dia. Esse será o tema debatido no Jornal da Estação de amanhã. Não percam é amanhã no Jornal da Estação que começa às 7h da manhã.

Um comentário:

  1. BOM DIA!!!!!!! FICO FELIZ SE SUA PESSOA COLOCAR ESSE LINDO TEXTO NO BLOG. OBRIGADO!!!

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    A
    > dança da morte
    >
    >
    >
    > Fernanda Torres
    >
    >
    >
    >
    >
    > A peça Seria Cômico Se Não Fosse Sério,
    > de Friedrich Dürrenmatt, foi o melhor espetáculo teatral
    > que meus pais produziram em anos e anos de parceria. Baseada
    > na Dança da Morte, do dramaturgo sueco August Strindberg,
    > ela se passa no início do século passado e conta a
    > história de um general aposentado, Edgar, e sua esposa,
    > Alice, que vivem às turras, isolados em um farol. Um dia, o
    > casal recebe a visita de um primo mafioso, que se esconde
    > com eles no alto da torre. Depois de desassossegar a vida
    > dos dois por doze vertiginosos rounds, o primo cafajeste se
    > manda, devolvendo o par à sua mais derradeira solidão.
    >
    > Jamais vou esquecer meu pai com barbas de
    > Matusalém, vestido de general da I Guerra, dançando
    > furiosamente a Dança dos Boiardos. Era sensacional. Lá
    > pelo fim do espetáculo, Edgar se levantava louco, altivo, e
    > dizia:
    >
    > - Agora vou dançar a Dança dos
    > Boiardos!
    >
    > E começava uma coreografia ensandecida,
    > meio russa, meio gaúcha, pulando em torno de uma espada no
    > chão. Querendo exibir vigor ao primo escroque da esposa,
    > Edgar dança até o limite de suas forças e acaba sofrendo
    > um AVC. A peça termina com Edgar numa cadeira, seqüelado
    > pelo derrame, e Alice arrumando a desordem da casa por causa
    > da passagem do primo.
    >
    > Era de uma beleza terrível, cortante,
    > teatro com T maiúsculo. Quem viu sabe. Como com teatro não
    > se brinca, havia ali o prenúncio de algo que viria a
    > acontecer com meus pais anos depois, só que de maneira
    > muito mais doce, amorosa e redentora. Minha mãe cuidaria
    > dele, e ele dela; mais ela dele, por problemas de saúde, no
    > terço final de seus 57 anos de casados. Uma amiga gostava
    > de dizer que meu pai ainda estava vivo porque minha mãe e
    > ele queriam assim.
    >
    > Em 1986 meu pai sofreu um primeiro derrame,
    > não detectado, durante a representação da tragédia grega
    > Fedra. Ele esqueceu o texto em cena e, como a neurologia
    > ainda engatinhava, levamos anos para entender que não era
    > um problema psíquico, mas físico, o início de sua dança
    > da morte, que levou vinte anos para acontecer.
    >
    > Meu pai é um mistério tão grande para
    > mim que fica difícil falar dele numa crônica. Mas, como
    > estou chegando à conclusão de que todo pai é um mistério
    > para os filhos, ao contrário das mães, que são
    > desabridas, arrisco aqui um modesto perfil.
    >
    > Dono de um humor cortante, que seria
    > cômico se não fosse sério, doce e sádico, careta e
    > maluco, velho e criança, meu pai foi produtor, diretor e
    > ator, um homem dedicado a todas as facetas do teatro. Teve
    > coragem de largar a medicina, enfrentando o pai médico e
    > político dos tempos da política do café-com-leite, para
    > fazer parte dessa profissão etérea. Dizem que o estalo se
    > deu no trote da faculdade, quando em plena Cinelândia ele
    > gritou: "Fiat Lux!". E as luzes da praça se
    > acenderam numa sincronicidade cósmica. Foi ali, logo de
    > cara, que perdemos um médico e ganhamos um diretor. Devo a
    > ele toda a minha curiosidade científica, devo a ele dizer o
    > que penso, devo a ele o cinema, a infância, Veneza, Machu
    > Picchu, Buenos Aires e as montanhas russas. Devo ao meu pai
    > tudo o que sou que não é ser atriz, e certamente devo ao
    > meu pai a promessa de alguma serenidade diante da velhice e
    > da morte.
    >
    > Como ele adoeceu há muito tempo, as
    > lembranças do homem de teatro, do pai jovem e doidão, do
    > barbudo enraivecido pela censura de Calabar se misturam
    > fortemente com as do Fernando de saúde frágil com quem
    > convivi nos últimos tempos. É muito difícil para um filho
    > lidar com a doença de seu pai. Por isso, gostaria de
    > agradecer às muitas pessoas que nos ajudaram nesse
    > período, em especial à Roberta, sua fisioterapeuta, aos
    > enfermeiros Jorge e Cristiano e, acima de todos, à doutora
    > Lúcia Braga, do Hospital Sarah Kubitscheck, que deu ao meu
    > pai cinco, seis, dez anos a mais de vida, libertando-o dos
    > especialistas em doenças, cortando catorze medicamentos e
    > colocando no lugar o teatro, os barcos, o pingue-pongue e a
    > vida; e à doutora Claudia Burlá, geriatra,
    > especialização cuja profundidade só fui entender na noite
    > em que meu pai morreu, em casa, conosco em torno dele, e com
    > ela. Sem tubos, sem CTIs, sem prolongadores artificiais de
    > respiração ou batimentos cardíacos. Foi ela que mandou
    > chamar a mim e ao meu irmão, foi ela quem nos ajudou. A
    > morte do meu pai foi uma experiência tão caseira, humana,
    > pacífica e acolhedora, apesar do sofrimento e da dor, que
    > me fez por alguns segundos achar que esse absurdo que é a
    > morte, afinal de contas, pode fazer parte da vida.
    >
    > Um salva de palmas para ele. Foi um
    > guerreiro discreto, forte e corajoso. Espero conseguir ser
    > assim quando chegar a hora de eu dançar a minha Dança dos
    > Boiardos.



    > Fernanda Torres é filha de Fernanda
    > Montenegro e Fernando Torres.

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