2 de dezembro de 2008

UMA CHUVA DE CAOS

Essa semana o Blog do Melqui traz excepcionalmente um artigo sobre as chuvas em Santa Catarina com a nossa colunista Jan Mayen e fotos exclusivas enviadas por Tiago Tigor. É o Blog do Melqui mais uma vez partindo na frente e se destacando para que você possa ter um conteúdo sério e de qualidade, confira:
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Depois da tempestade não veio a bonança, e sim o medo e a desolação ao voltar para casa. Pior, voltar para onde?

O sol ontem parecia ter enfim dado sinais de uma possível primavera em Curitiba...
Resolvendo algumas tarefas do cotidiano passei em casa para tomar um belo banho antes de ir fazer as compras, foi o tempo do ‘tempo’ mudar completamente.
Eram 15:00 h, mas já parecia noite de tão nublado, munida com meu guarda-chuva importado da China, fui confiante até o Mercadorama que fica só duas quadras de minha casa, no mais estava apenas chuviscando... até o momento que pisei na calçada do supermercado e para total surpresa um vento fortíssimo e uma chuva idem arrancaram de minhas mãos o guarda-chuva (na verdade eu o larguei, caso contrário teria ido junto), atônita, saí em disparada para a porta de entrada, tudo em poucos segundos, suficientes para ficar encharcada até a próxima encarnação!
Lá dentro a força da chuva sobre o teto de metal era tão forte que não conseguíamos ouvir nem nossa própria voz, não vou mentir, como boa nordestina que sou ao ver cair tanta água, fiquei com medo! Da mesma forma que chegou, de repente, passou, mas enquanto estive dentro do supermercado com o barulho ensurdecedor da chuva não pude parar de pensar na situação em Santa Catarina, e a sensação que senti foi horrível.
Imediatamente veio à memória as fotos e o depoimento enviados a mim por Tiago, um colega de república, que teve o azar de estar no meio da estrada rumo à Balneário Camboriú quando a tragédia se abateu na região do Itajaí.
Ele ficou ilhado por dias, num pequeno vilarejo entre as cidades mais devastadas, sem poder seguir em frente ou retornar à Curitiba. Só agora no último final de semana chegou na casa dos parentes e descobriu que seu irmão havia perdido tudo e a casa foi totalmente destruída, já sua irmã teve mais sorte e apenas entrou água na dela, apenas... as fotos do Papai Noel boiando dentro de uma casa irão perdurar todo este natal em minha mente. Através do Tiago que se tornou uma espécie de correspondente ‘in loco’, fui uma das primeiras pessoas a perceber a real gravidade do que está se passando em SC, lá tem toque de recolher e se as pessoas se ausentarem de suas casas podem perder nos saques e furtos aquilo que a chuva não conseguiu levar.
O País se mobiliza para ajudar as vitimas desta catástrofe climática. Aqui em Curitiba todos os quartéis militares viraram postos de coleta e organização dos donativos, o Paraná já enviou toneladas de suprimentos, e todos os dias os noticiários locais mostram a dimensão da dor em cenas de cortar o coração, cenas que não passam no horário nobre global, como por exemplo a da senhora que saiu de uma cidade vizinha das que foram atingidas e foi junto com seu esposo, dirigindo sua velha Belina, levar caldeirões de comida, para servir a uma gente que não comia nada quente há mais de uma semana. Abordada sobre o que a levou a este ato ela disse com a voz entrecortada e lágrimas a vista: “Eu não podia ficar em casa só assistindo sem fazer nada, não posso fazer muito por aqueles que perderam tudo, mas posso pelo menos oferecer um prato de comida quente já que mesmo recebendo doações são poucos os que ainda tem fogão ou mesmo gás para cozinhar, e é nessas horas que devemos sentir o verdadeiro espírito do natal, ajudando quem precisa, e eles precisam muito”
Depois desta reportagem a ficha caiu para todos os voluntários que estão trabalhando na causa, e agora a ordem é além de dar preferência por água mineral , materiais de limpeza e higiene pessoal, que as pessoas enviem comida pronta.
Confesso que fiquei tocada ao saber da iniciativa dos Santa-cruzenses em socorrer os Catarinenses, o que me chama mais a atenção é a ligação estreita que une estes dois pontos tão distantes: Santa Cruz fez fama com seu pólo de confecções, toda via isso só foi possível com o advento têxtil de Santa Catarina, e hoje de certa forma ‘Santa’ pode retribuir através de sua ajuda a parceria de décadas de sucesso com a outra Santa, pena que infelizmente nestas condições os laços entre as duas regiões se tornaram mais visíveis.
Algumas estradas já foram liberadas, mas o acesso a pontos mais isolados só mesmo partindo de helicóptero. Há ainda o risco de novos desabamentos e até onde estou informada as chuvas continuam na região atingida.
O saldo da tragédia deve aumentar, e querem saber de quem é a culpa de tudo isso?
Fácil, é só nos olharmos no espelho. O Homem, este animal que se diz o único racional, ainda põe nas costas de Deus todas as misérias que provoca e posteriormente se abatem sobre ele, a fragilidade da natureza ganha contornos em momentos como este, mas não é suficiente para que a Humanidade a respeite.
Alguém já ouviu falar num documentário chamado “Uma Verdade Inconveniente” ?
Acreditem o caos está só começando, posto que o Ser Humano está fadado a destruir, inclusive a si próprio.
Jan Mayen Somar - especial para o Blog do Melqui
Fotos enviadas diretamente de SC por Tiago Tigor

2 comentários:

  1. Eis um grande problema: o que há é uma sensibilização geral da parte do povo nacional, mas ninguém é capaz de sentir realmente a dor daqueles que viram a casa ser engolida pelo morro que ficava nos fundos do quintal, onde provavelmente as crianças brincavam e subiam nas árvores...

    E não acredito que seja totalmente culpa do ser humano desastres como esse. Eles acontecem independentemente dos nossos atos. Claro, a frequencia aumentou e muito por causa da ação humana, mas como garantir que o desastre de SC não aconteceria independentemente da nossa presença?

    Ah, Jan, essa chuva que vc pegou, eu estava no meio da aula, e nossa, a luz piscava o tempo todo, que temporal!! Admito que também senti medo, até porque tem um rio que passa a 4 quadras aqui de casa...

    Mas não há de acontecer nada de ruim, pelas barbas de Tolstói !!
    ahahaha

    Abraço !!!

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  2. Acho que a melhor forma de expressar o que sinto é colar aqui o depoimento de um amigo, que vivia, até poucos dias atrás, em Blumenau, SC:

    "Uma coisa que os jornais e dados oficiais estão omitindo é quanto ao número de mortos. Sem alarde ou boatos, é bem maior, porém esses corpos ainda não foram identificados ou retirados do local devido o difícil acesso.
    Existem regiões ainda isoladas como o Morro do Baú (no município vizinho, Ilhota) onde sabe-se que muita gente não deu sinal de vida, e que uma comunidade inteira foi varrida do mapa.

    Eu fui relativamente pouco afetado pela catástrofe. A água da cheia atingiu a área social e garagem do meu condomínio e por um metro não invadiu meu apartamento que precisou ser evacuado na noite de Domingo. Recolher tudo o que tem e tirar as pressas de casa é uma sensação desagradável. Passei a madrugada rezando para que isso tudo acabasse.

    Na manhã de segunda acordei (dormi no chão de casa mesmo) com um cenário de guerra, desolador. Tanques anfíbios do exército, pessoas desabrigadas nas ruas, lama, ambulâncias, bombeiros, veículos do IML e muitas casas destruídas.

    Desde então é rotina os helicópteros militares e veículos de resgate nas ruas. A cidade jardim, que até um mês atrás estava em festa, está agora desolada. Fere o orgulho de qualquer habitante."

    Diego Keller, 18.

    Pessoas de qualquer canto do Brasil podem doar em pontos específicos como na sede da defesa civil de suas cidades e CEFETs, ou quantia qualquer em dinheiro depositada em contas oficiais.

    Esse link tem mais informações:

    http://allesblau.net/category/enchente-noticias/doacoes-oficial/

    Minhas sinceras condolências ás pessoas que perderam parentes e bens materiais conquistados com trabalho duro (casa, carro, móveis).

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