6 de janeiro de 2010

Toxicomania na emergência clínica

Estou a alguns meses em estágio em uma clínica psiquiátrica que recebe para tratamento e reabilitação em alto índice, além de pacientes com quadro grave de perturbações mentais, usuários de drogas. Desses pacientes podemos encontrar usuários de bebida alcoólica, em nível já avançado de consumo; usuários de alguns solventes, como cola de sapateiro e thinner (o thinner é uma designação genérica de diversos solventes utilizados para diluir tintas, corantes e vernizes em geral. É altamente tóxico se inalado); no entanto, o que mais preocupa são os usuários do narcótico crack.

Crack é um composto de pasta de cocaína misturada com bicarbonato de sódio, sólida em forma de cristal, que pode ser fumada. A droga chega ao sistema nervoso central em segundos. Em relação ao seu preço, é uma droga mais barata que a cocaína e talvez por isso tenha se disseminado tão fácil. O crack eleva a temperatura corporal, podendo levar o usuário a um acidente vascular cerebral. A droga também causa destruição de neurônios e provoca no dependente a degeneração dos músculos do corpo, o que dá aquela aparência característica (esquelética). A droga ainda inibe a fome, além de perturbar o sono e deixar o usuário sem dormir por dias, pode provocar alucinações e demais efeitos psicoativos. Tudo isto, e muito mais, leva também a um quadro epidemiológico serissimo de violência, marginalização e saúde pública, quando se tornam altamente agressivos e passam a praticar pequenos delitos para manter o consumo.

Na clínica, em meus contatos com os dependentes químicos, tenho percebido sempre o mesmo discurso: A via de entrada na droga se deu por alguns amigos terem lhe oferecido; o primeiro trago foi o suficiente; o prazer gerado, pelo consumo, é superior e substitui qualquer outro prazer, inclusive o do gozo sexual. Apesar de ser chocante, o que é mais comum e não surpreendente é a isenção de responsabilidade dos usuários. Para muitos deles, e são quase todos, as consequências na família e o desespero dos parentes, em ter em casa alguém envolvido com o consumo e com o tráfico de drogas é algo sem sentido e sem razão. Dizem que não fazem mal a ninguém, apenas a si mesmo. Terminam por culpar a família pela sua dependência e justificar suas angústias existenciais.

O usuário de crack se coloca apenas como uma vítima da sociedade e de suas bases autoritárias, que são cruéis e desiguais, vítima da intolerância da família e dos amigos que não se compadecem de seu sofrimento e vítima do traficante que lhe persegue e não lhe facilita o uso.

A toxicomania é um produto da sociedade pósmoderna e tem em sua origem as ideias disseminadas de individualidade, de prazer imediato, de onipotência, de liberdade sem responsabilidade, de carpe diem. Falta em muitos dependentes químicos a implicação no seu consumo, no tráfico, na violência urbana, na violência moral, na violência psicológica sobre si e sobre os outros próximos. Resta-lhes o vazio, o desespero e a falta de sentido coletivamente individualizados.


Ulisses Nascimento, bacharelando do 9º período em Psicologia pela Universidade Estadual da Paraíba.


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Um comentário:

Anne disse...

Esse índice cresce a cada dia. E é triste saber que, apesar das campanhas e recomendações tantas vezes dadas, os jovens continuam tendo atitudes irresponsáveis como essas, fruto de seu egocentrismo; e acabam degradando suas vidas e as de seus familiares.

Resta a nós fazermos nossa parte de contínua conscientização aos jovens, e aguardarmos, com esperança, que um dia a situação seja menos devastadora do que é atualmente.